#JFCnaCopa: Entrevista com o jornalista Orlando Duarte

17 01 2012

“Poucas pessoas sabem, mas o Brasil também mandou dinheiro para o Peru em 78, mas a grana não chegou até eles”

Por José Rodolfo Pereira

Dando continuidade ao especial em ritmo de Copa do Mundo com o jornalista Orlando Duarte, a segunda parte da entrevista exclusiva ao Jornalismo FC  foca nas Seleções de 74 a 86. Perdeu a primeira parte? Basta acessar aqui.

Prestes a completar 80 anos no dia 18 de fevereiro, o jornalista Orlando Duarte, nascido na cidade de Rancharia, tem muitas histórias para contar sobre o esporte mais popular do mundo. Orlando cobriu as Copas do Mundo entre 1950 e 2006, ficando de fora apenas da última, em 2010, na África do Sul.

Nesta edição, uma grande revelação está na Copa de 78, disputado na Argentina, em que quando todos pensam que apenas os donos da casa subornou a seleção do Peru, porém, não foi bem assim. Orlando Duarte conta isso, e muito mais, em detalhes para você.

JFC: Na Copa de 1974, você acreditava que a Holanda poderia surpreender o Brasil?

Orlando Duarte: Eu vi o jogo entre Holanda e Uruguai. A partida terminou 2 a 0 para os holandeses, mas poderia ter sido 10 a 0. A Holanda tinha um estilo de jogo que surpreendia. Não era um time fantástico, mas tinha Cruyff, Neeskens, Rensenbrink, que eram bons jogadores. Eu cheguei a falar com o Zagallo e com o Parreira, porém, eles tinham que se preocupar também com a seleção. Então a escalação já foi errada e a tática do jogo também. Curiosamente essa seleção se formou basicamente durante o campeonato. O Rinus Michels, tecnico da Holanda, era muito criticado no país. Ninguém acreditava no trabalho dele. Aí na Copa, eles ficaram abismados com o que ele conseguiu fazer.

eeskens marca o primeiro gol da vitória holandesa por 2 a 0 sobre o Brasil (Foto: AE)


JFC: A Copa de 78, vencida pela Argentina, teve alguma espécie de compra de resultado?

Argentina campeã de 78 "pero no mucho" (Foto: Fifa.com)

Orlando Duarte: A Argentina ganhou da Hungria e da França praticamente auxiliada pelo árbitro. Pênaltis, gols anulados, etc. Como tinha uma vitória e uma derrota, com mais um resultado negativo ela estava fora do campeonato. A divisão de grupos também foi equivocada. O Brasil não deveria estar naquele grupo da Argentina, Peru e Polônia. A seleção brasileira não começou bem, mas foi crescendo. O Brasil ganhou de três da Polônia e do Peru. Porém, eu falei que não adiantava ganhar de três, mas sim, de cinco. E poderia ter ganhado e assim seriam 10 gols marcados nesses dois jogos. O time tinha que fazer gols e aí o Peru teria que tomar 10 gols da Argentina. Se isso acontecesse, dava para pedir a anulação do campeonato. O goleiro do Peru, Quiroga, era argentino e foram na casa da família dele e disseram: “Avisa o Quiroga que ele pode ficar tranquilo que ninguém vai fazer mal para ele”. Foi uma palhaçada.

JFC: E a seleção do Peru como reagiu?

Orlando Duarte: Olha, poucas pessoas sabem, mas o Brasil também mandou dinheiro para o Peru, mas para eles vencerem a Argentina. O dinheiro não chegou até eles, pois os peruanos estavam blindados na Argentina. Eles sofreram pressão política, e também deve ter dito dinheiro. Não do Peru, mas da Argentina. Os argentinos tinham um time bom, mas não para ganhar a Copa de 78. Ela poderia ter ganhado uns 30 campeonatos, mas não a final de 78.

JFC: Muitos dizem que a seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1982 é a que reuniu o maior número de jogadores de qualidade. Você concorda?

Orlando Duarte: Eu acho que a seleção de 58 tinha mais valor. O desequilíbrio é grande quando você tem cinco grandes jogadores e não tem 22 grandes atletas. Tinha um garoto chamado Pelé e outro Garrincha. Então, não tem como comparar.

JFC: Como aconteceu em 70, na Copa de 1986 que também foi disputada no México, houve novamente a receptivdade dos mexicanos. Como foi isso?

Orlando Duarte: Foi ótima. O dia que o México perdeu, o Brasil também perdeu e a tristeza foi total. O Brasil torcia pelo México e vice-versa.





#JFCnaCopa: Entrevista com o jornalista Orlando Duarte

15 01 2012

“Não adiantava 200 mil pessoas nas arquibancadas, a soberba estava dentro dos jogadores”

Por José Rodolfo Pereira

Jornalista cobriu as Copas do Mundo entre 1950 e 2006 (www.muraldoantena.com.br)

Prestes a completar 80 anos no dia 18 de fevereiro, o jornalista Orlando Duarte, nascido na cidade de Rancharia, tem muitas histórias para contar sobre o esporte mais popular do mundo. Orlando cobriu as Copas do Mundo entre 1950 e 2006, ficando de fora apenas da última, em 2010, na África do Sul.

O Jornalismo FC bateu um papo com um dos maiores mitos do jornalismo esportivo e a entrevista exclusiva será dividida em quatro partes. Ao invés de o jornalista falar da expectativa para a Copa do Mundo no Brasil, em 2014, ele preferiu relembrar alguns casos das outras edições. A seguir, o leitor encontrará histórias sobre as Copas, esclarecimentos e revelações de fatos que só quem estava lá poderia descrever como realmente aconteceu.

Na primeira parte desta agradável conversa, Orlando não hesitou em falar qual foi para ele a melhor Seleção Brasileira de todos os tempos. Desta vez, porém, as Seleções de 70 e 82, sempre muito comparadas, não foram mencionadas pelo jornalista.

JFC: A Copa de 1950 foi a primeira que você cobriu. Como foi aquela tragédia no Maracanã?

Orlando Duarte: O Brasil tinha um bom time, mas nós vivíamos uma época de eleições. Os jogadores foram retirados da concentração no dia 15 de junho para ir a São Januário posar com os políticos. Era um dia quente e os jogadores já começaram a perder o foco da partida. No jogo, o Brasil só precisava de um empate para ficar com o título e saiu ganhando por 1 a 0. Isso piorou aquele clima de “já ganhou”. Não adiantava 200 mil pessoas nas arquibancadas, a soberba estava dentro dos jogadores. Então veio o empate e a virada do Uruguai, e aí foi um desespero total. Teve a questão política, mas isso foi irrelevante. Se o Brasil tivesse jogado como nas partidas anteriores, esse problema não teria tirado o nosso título.

JFC: A segunda zebra em uma Copa do Mundo foi em 1954?

Orlando Duarte: Foi sim! A Hungria tinha um ótimo time, mas o craque deles, Puskás, se machucou e mesmo assim foi jogar a final. Todos naquela equipe eram bons. E a Alemanha havia perdido para a Hungria na primeira fase por 8 a 3. E como aconteceu com o Brasil, os húngaros estavam no clima de “já ganhou” na final. O técnico alemão, Sepp Herberger, além de um treinador de verdade, era um teórico. Ele reuniu o time e falou: “Eles são melhores e favoritos. Mas se chover, nós temos uma chance, pois nosso futebol é pesado”. Sem falar que eles inovaram e descobriram as travas da chuteira, assim poderiam ter mais estabilidade se chovesse. E o que aconteceu? Choveu muito naquele dia. Herberger sorria e sabia que seria grande a chance de ocorrer um milagre. E foi isso que ocorreu. A Alemanha ganhou de virada por 3 a 2.


JFC: A seleção brasileira de 58 foi a melhor que você já viu jogar?

Orlando Duarte: Sim, pois não tinha apenas 11 bons jogadores, mas sim 22. Quem? Nilton Santos era uma enciclopédia. Didi era fantástico. Pelé aquela maravilha e o Garrincha brilhante. Para cada posição tinha bons jogadores. Tinha o De Sordi e o Djalma Santos. Bellini e Orlando Pessanha e também o Zito e o Dino Sani. Era um timaço de primeira qualidade. Não houve nada igual até hoje. Tanto é que ganhou a Copa sem sofrer gols nos quatro primeiros jogos. Goleou na semifinal a França que estava goleando todo mundo e venceu a Suécia na final. Mais que isso, não dá!

JFC: Qual foi a importância do Paulo Machado de Carvalho na Copa do Mundo de 1962?

Orlando Duarte: Acho que você precisa ter o grupo com você. Ele era o responsável por liderar a delegação brasileira nas copas de 1958 e 62. O Brasil ficou muito prejudicado com a contusão do Pelé. O doutor Paulo conseguiu encaminhar tudo de um ótimo jeito. O chefe da delegação era de uma importância fundamental naquele tempo. Ele conseguiu desenvolver planos, inclusive de logística, para que a seleção não fosse assediada e resolveu problemas internos de uma maneira inteligente.

JFC: Como foi a receptividade dos mexicanos com a seleção brasileira na Copa de 70? Por que houve essa aproximação entre México e Brasil?

Orlando Duarte: Em 1970, inexplicavelmente, o México vestiu a camisa do Brasil. Quando cheguei no estádio da abertura, o Azteca, estava cheio de bandeiras verde, vermelha e branca, as cores do México. Na final, quando entrei, vi tudo verde e amarelo. O estádio inteiro gritava pela seleção brasileira. O Brasil ficou em Guadalajara e cada vez mais tinha gente torcendo pela nossa seleção. Bandeiras nas casas, um negócio incrível. O Brasil não teria tal apoio naquela época no próprio país como teve em 70 no México.








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