Para Guerrinha, “Não há ídolos no basquete brasileiro”

9 09 2011

Guerrinha, técnico do Itabom/Bauru, analisa a atual fase do esporte

Por João Paulo Benini

Nascido em Franca, a Meca do basquete brasileiro, Jorge Guerra, o Guerrinha, tem o sangue basqueteiro correndo nas veias e seu nome escrito na modalidade, seja como jogador nas décadas de 1980 e 90 e, mais recentemente, como técnico.

Guerrinha fez parte do grupo que venceu o Pan-americano de Indianápolis em 1987 ao lado de lendas como Marcel e Oscar, foi campeão nacional com a equipe do Bauru/Tilibra/Copimax em 2002 e atendeu à reportagem do JornalismoFC para um bate-papo sobre o panorama do basquete nacional.

JornalismoFC– A geração bicampeã mundial em 1959 e 1963 detém os maiores títulos basquete nacional. Após essa conquista, o auge do basquete brasileiro foi o Pan de 87 com a vitória sobre os EUA. Qual a emoção de ter conquistado esse título em terras norte-americanas?

Guerrinha e companheiros festejando o título de 87 (Crédito: Arquivo CBB)

Guerrinha – Foi um prêmio para a geração de Oscar e Marcel. Nós jogamos juntos por 15 anos, seja em Olimpíadas ou Mundiais, sempre entre os cinco melhores, em Pan-americanos sempre com medalhas de prata ou ouro. Essa geração, mesmo que de forma profissional, defendia as cores do Brasil com carinho e amor. Ser convocado para a seleção era como ser chamado pelo Exército, você atendia à solicitação, cantava o hino nacional e se emocionava.

JFC – No seu tempo de jogador o Brasil não perdia para a Argentina. A que se deve esse crescimento?

Guerrinha – A Argentina enviou mais de 300 jovens com cidadanias italiana e espanhola para treinar na Europa Dentre esse jovens estavam Ginobili (Emanuel Ginobili, ala argentino do San Antonio Spurs) e Scola (Luis Scola, ala-pivô argentino do Houston Rockets). Todos esses garotos saíram, assim como o Spliter (Thiago Spliter, ala-pivô brasileiro do San Antonio Spurs), e ficaram jogando campeonatos europeus de nível superior. Esse não foi um trabalho da Argentina. Essa geração medalhista de ouro, em Atenas 2004, tem dois jogadores para comandar o time, como a nossa teve Oscar e Marcel, da seleção bi-mundial teve Vlamir e Amaury. A Argentina tem outros bons jogadores, mas são esses dois que fazem a diferença.

JFC – O Brasil estagnou?

Guerrinha – No Brasil não tivemos nenhum grande jogador. Teve a geração do Vanderley (Vanderlei Mazzuchini, diretor da Confederação Brasileira de Basquete), do Rogério (Rogério Klafke, ala-pivô do Winner/Limeira) e do Demétrius (Demétrius Ferraciú, técnico do Winner/Limeira) que não emplacou por não ter um jogador de grande destaque. Mais recentemente tivemos a geração do Nenê, Leandrinho, Anderson Varejão, Guilherme Giovanonni, Alex, mas o basquete mundial mudou e o jogador pensa mais em si próprio, em um bom contrato, do que na seleção. Antes nós ficávamos três meses treinando e jogando juntos, hoje isso é impossível.

JFC – Então você acredita que a parte financeira interfira no atendimento às convocações e ao distanciamento em relação à torcida?

Guerrinha – Sem dúvida. É um mundo completamente diferente do nosso. Na seleção você encontra jogadores que ganham 40 milhões de dólares por ano com outros que ganham 5 mil dólares por mês. Há muitas coisas em jogo que afastam os jogadores da seleção, como seguros e contusões. E mesmo a realização financeira atrapalha um pouco, não esses que atenderam a seleção para o pré-olímpico, mas os outros.

JFC – Você comentou a geração do Alex, do Guilerme Giovanonni. Esses atletas passaram pela sua comissão técnica (Guerrinha foi auxiliar de Lula Ferreira entre 2003 e 2007), mas os resultados não apareceram. O Brasil não conseguiu classificação para as Olimpíadas e foi mal em mundiais. Tem um por quê?

Guerrinha – Não é todo time que tem um Scola e um Ginobili, que na bola decisiva o cara chama e decide. O Chicago Bull foi campeão porque tinha o Michael Jordan. O Los Angeles Lakers tem o Kobe Briant, entendeu. A geração é vencedora quando tem jogadores diferenciados, e atualmente o Brasil não tem.

JFC – O basquete paulista sempre foi hegemônico no Brasil, mas desde 2003 não vence um campeonato. Você concorda que o basquete paulista perdeu força?

Guerrinha – Não, porque o atual campeão quem é? É Brasília com o time formado no COC/Ribeirão. Se você tiver dinheiro, leva o time campeão para qualquer lugar. Qual o trabalho que Brasília e Flamengo fizeram para serem campeões? Nenhum. Você pega os melhores jogadores, com 400 mil reais de orçamento e vai ser campeão. Eu quero ver começar o trabalho do zero como aqui no Itabom/Bauru e modelar os jogadores, como o Fischer, o Larry. Para o basquete brasileiro é legal que só São Paulo não seja campeão, mas na realidade qual o trabalho dos outros campeonatos estaduais? São quase inexistentes. São Paulo continua sendo o celeiro, os times de outros estados vêm buscar jogadores formados aqui.

JFC – O investimento no basquete de base é satisfatório?

Guerrinha dando instruções para o time do Itabom/Bauru (Crédito:Sérgio Domingues/HDR Photo/Bauru Basket)

Guerrinha – A Liga está fazendo um investimento na base que não é feito nem pelo governo, pela confederação ou pelas federações. A Liga está montando um campeonato desenvolvimento sub-21 para ajudar na formação de novos jogadores. Mas o grande problema do basquete de hoje é comum a todos os esportes: a falta de esporte nas escolas. Não temos política esportiva. Nós não temos mais clubes que ajudavam nessa formação, assim fica difícil formar novos atletas.

JFC – O basquete enfrenta todo começo de campeonato a incerteza de conseguir patrocínios. O basquete vende mal o seu produto ou está faltando visão aos empresários em usarem a modalidade para expor suas marcas?

Guerrinha – As duas coisas. O basquete precisa disputar uma Olimpíada, ter ídolos que nós não temos. A minha geração é mais conhecida do que a seleção atual, mesmo que nessa geração tenha atletas na NBA. O ídolo vem com resultados.

JFC – Os dois últimos técnicos da seleção brasileira de basquete são estrangeiros. O nível técnico deles é melhor que dos treinadores nacionais?

Guerrinha – O Moncho Monsalve (espanhol) veio para dar satisfação. Ele aproveitou o trabalho que vinha sendo feito nos clubes. Agora, o Rubén Magnano é um técnico de muita capacidade, tem muito a acrescentar, mas não é isso que faz a diferença. Se outros técnicos como o Lula e o Hélio Rubens tivessem o Ginobili e o Scola, teriam classificados para a Olimpíada e teriam medalha olímpica.     

JFC – A Confederação tentou a naturalização do Larry, seu atleta no Itabom/Bauru. Você concorda com essa política?

Guerrinha – Não, não sou favorável. O Brasil tem jogadores e técnicos em condições. No caso do Larry, ele está aqui há quatro anos, já é um brasileiro de coração, está familiarizado. Mas trazer um jogador sem saber nossa cultura não dá. O mesmo vale para os técnicos. Tem que saber da realidade do esporte.

JFC – Para finalizar, gostaria que comentasse os nomes de jogador e técnico mais promissores no basquete nacional.

Guerrinha – Acho que o Demétrius e o Gustavinho (Gustavo de Conti, técnico do Paulistano). Mas o Demétrius teve uma vivencia diferenciada. Ele foi jogador de seleção, participou de Olimpíada (em Atlanta, 1996), vem desenvolvendo um início de trabalho muito bom e com resultado (é o atual campeão paulista pelo Winner/Limeira). Jogador tem o Raulzinho, o Rafael Luz, mas nenhum carimbado. Não dá para cravar: “Esse vai ser um grande jogador!” 


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3 respostas

5 10 2011
Para Guerrinha, “Não há ídolos no basquete brasileiro” « : Link Mundial

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28 09 2011
Jetsin

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26 09 2011
Belle

As Charlie Sheen says, this artcile is “WINNING!”

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